Valteli Alves

O grito silencioso dos presídios: Porque servidores penitenciário do RS estão tirando a própria vida? (Uma análise sistêmica)

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Quando o guardião precisa de socorro

A notícia veiculada pela Rádio Pampa ecoou como um alarme que, infelizmente, muitos insistem em ignorar: o índice alarmante de suicídio entre os servidores penitenciários do Rio Grande do Sul.

Não estamos falando apenas de estatísticas frias. Estamos falando de pais, mães, filhos e irmãos que vestem uma farda para enfrentar, diariamente, a sombra da sociedade. O ambiente prisional é, por natureza, um local de tensão, dor e exclusão. Mas quando aqueles que deveriam manter a ordem começam a sucumbir à própria dor, é sinal de que o sistema inteiro está doente.

A mídia tradicional e a ciência médica apontam as causas visíveis: o estresse crônico, a falta de efetivo, as condições insalubres de trabalho e o risco iminente de morte. Tudo isso é verdade e precisa ser combatido.

No entanto, neste artigo, nós vamos descer a um nível mais profundo. Vamos olhar para o que a medicina não vê, mas que a alma sente. Vamos analisar essa crise sob a ótica da biologia do trauma, das Leis Sistêmicas de Bert Hellinger e da Linguagem do Corpo.

Por que, diante do mesmo cenário caótico, alguns adoecem e outros chegam ao ato extremo? A resposta pode estar nas lealdades invisíveis e no peso energético que esses guerreiros carregam.

1. O cenário descrito pela rádio pampa e a ciência tradicional

A reportagem da Rádio Pampa traz à tona a urgência de políticas de combate ao suicídio. A realidade do servidor penitenciário no RS (e no Brasil) é um barril de pólvora:

  • Hipervigilância constante: O servidor vive em estado de alerta máximo. Um segundo de distração pode custar sua vida ou gerar uma rebelião.
  • Contanto com a violência extrema: Eles testemunham o pior do comportamento humano diariamente.
  • Desvalorização institucional: Baixos salários, falta de equipamentos e a sensação de “enxugar gelo” no combate ao crime.
  • Isolamento social: Pela natureza da profissão, muitos se isolam de amigos e familiares que “não entendem” sua realidade, criando guetos de convivência apenas entre colegas.

A visão da ciência tradicional (psiquiatria e psicologia): Para a ciência convencional, o diagnóstico é claro: Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), Burnout severo, depressão e transtornos de ansiedade. O tratamento envolve medicação, terapia cognitivo-comportamental e, idealmente, afastamento do ambiente tóxico.

Mas se a causa fosse apenas o ambiente, 100% dos servidores teriam o mesmo destino. Precisamos entender o mecanismo interno.

2. A biologia do colapso: O corpo que não desliga

Para entender o caminho até o suicídio, precisamos entender a neurobiologia do servidor penitenciário.

O corpo humano não foi projetado para viver em “modo de guerra” 24 horas por dia, 7 dias por semana. O sistema prisional exige que o servidor mantenha seu Sistema Nervoso Simpático (lutar ou fugir) ativado o tempo todo.

A Inundação tóxica

Isso gera uma inundação crônica de cortisol e adrenalina. Inicialmente, isso o mantém “ligado”. Mas, com o passar dos anos, essa carga alostática (o desgaste do estresse acumulado) começa a corroer o organismo.

  • O Cérebro muda: A amígdala (centro do medo) fica hipertrofiada, vendo perigo em tudo, até no ambiente familiar. O córtex pré-frontal (racionalidade e controle de impulsos) diminui sua atividade.
  • O Colapso dorsal: Quando o corpo percebe que não pode lutar e nem fugir daquele ambiente hostil, ele entra na terceira via do sistema nervoso: o congelamento ou colapso (Teoria Polivagal). É aqui que mora o perigo. É o estado de anestesia emocional, de desesperança profunda, onde a morte parece a única via de escape da dor.

3. A visão da constelação familiar: no campo da exclusão

Aqui entramos na camada mais profunda e invisível, baseada nas descobertas de Bert Hellinger. O trabalho prisional não é um trabalho comum; é um trabalho sistêmico pesado.

Lidando com os “excluídos”

O sistema prisional é para onde a sociedade envia aqueles que ela quer “excluir”. O servidor penitenciário é o guardião dessa exclusão. Sistemicamente, quem lida diretamente com os excluídos corre o risco de se emaranhar com a energia deles.

Se o servidor não tiver uma base familiar interna muito forte (um bom vínculo com pai e mãe), ele pode começar a “olhar” para o destino difícil dos presos e, inconscientemente, se conectar com aquela dor, culpa e morte.

Violação da lei do equilíbrio (dar e receber)

Esta é, talvez, a maior ferida sistêmica da categoria. O servidor penal sua vida, sua saúde mental, seu tempo de família e sua segurança para a sociedade (o Estado). E o que ele RECEBE em troca? Muitas vezes, desvalorização, crítica da mídia, baixos salários e o esquecimento.

Quando o desequilíbrio entre o DAR e o RECEBER é tão brutal e prolongado, a alma do servidor entra em falência. O suicídio, nesse contexto trágico, pode ser visto como um movimento desesperado de “parar de dar” quando não se tem mais nada dentro de si.

A lealdade à morte

Muitos servidores que chegam ao suicídio podem estar vivendo uma lealdade sistêmica invisível. Eles lidam tanto com a morte e a violência que, se houver em sua própria árvore genealógica histórias de violência, suicídios ou mortes trágicas não resolvidas, o ambiente prisional serve como um “gatilho” para reativar essas memórias transgeracionais. O servidor pode estar, inconscientemente, dizendo: “Eu sigo vocês”, em direção à morte.

4. Linguagem do corpo e psicossomática: a armadura que sufoca

A especialista Cristina Cairo nos ensina que o corpo grita o que a boca cala. O servidor penitenciário, para sobreviver, precisa criar uma Couraça muscular (conceito de Wilhelm Reich).

Ele não pode demonstrar medo. Ele não pode demonstrar tristeza. Ele não pode demonstrar piedade. Ele precisa ser “durão”.

  • A postura rígida: Observe a postura de muitos agentes. Ombros travados e levantados (proteção do pescoço e excesso de carga), peito estufado (enfrentamento) e maxilar travado (raiva contida).
  • O Preço da armadura: Essa rigidez impede o fluxo das emoções. A tristeza e o medo, quando não processados, não desaparecem; eles se acumulam no corpo na forma de doenças psicossomáticas (hipertensão, problemas gástricos, dores crônicas na coluna).

A Psicossomática vê o suicídio como a quebra final dessa armadura. É quando a pressão interna de todas as emoções represadas por anos (o medo que não pôde ser sentido, o choro que não pôde ser chorado) se torna maior do que a capacidade do corpo de conter. A “explosão” é para dentro.

Conclusão: Um olhar integrado para salvar vidas

O combate ao suicídio entre os servidores penitenciários do RS, noticiado pela Rádio Pampa, exige mais do que palestras motivacionais ou um psicólogo disponível uma vez por mês.

Exige uma mudança estrutural (ciência e política), mas também uma mudança na postura interna de cada servidor (sistêmica e emocional).

O caminho da cura envolve:

  1. Reconhecimento Institucional: Melhorar as condições reais de trabalho (o básico do equilíbrio Dar/Receber).
  2. Descompressão Biológica: Técnicas para “desligar” o sistema de alerta (exercícios físicos, meditação, contato com a natureza).
  3. Postura Sistêmica: O servidor precisa aprender a deixar o peso do presídio no portão de saída. Ele precisa de ferramentas para não carregar o destino dos presos consigo. Ele precisa “tomar a vida” de seus próprios pais para ter força de enfrentar a morte no trabalho.
  4. Soltar a Armadura: Criar espaços seguros onde esses guerreiros possam, finalmente, sentir medo e tristeza sem julgamento, para que o corpo não precise “quebrar” para aliviar a tensão.

Que a notícia triste sirva de alerta real. Precisamos cuidar de quem nos guarda, olhando para eles não como máquinas de segurança, mas como almas humanas sob pressão extrema.

Se você é servidor e está lendo isso, e sente que o peso está insuportável, saiba que sua vida tem um valor imenso. Procure ajuda. Você não precisa carregar esse sistema sozinho.

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Nota: Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188. A ligação é gratuita e sigilosa.

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